Como anunciado há meses, venho disponibilizando aos
poucos algumas maravilhas de textos, crônicas e contos escritos por nossa RITA
LEE, como colaboradora e colunista em alguns jornais e revistas.
Desta vez,
posto um texto que RITA redigiu para o jornal Folha de S. Paulo, de 3/11/1993.
Aproveitem!
Delícia mesmo é
escutar Beatles em CD sem o encosto das “voodozetes” Yoko Ono e “Feia”
McCartney. Não sou saudosista, apenas nunca mais curti nenhum Beatle depois que
trocaram sua genialidade revolucionaria por meras trapalhadas matrimoniais. É
claro que a única mulher para os fab 4 seria esta que ora vos escreve...
Najas à parte,
mergulhei de cabeça e caí de boca nessas duas doses duplas que EMI está
servindo em taças red and blue, sendo ao todo 54 guloseimas das safras de 1962
a 1970. Nenhuma coletânea é perfeita, sempre faltam pérolas; uma delas é
“Lovely Rita” (feita especialmente para mim of course!). Em compensação você
tem “Lucy In The Sky With Diamonds”, com molho de LSD instantâneo. É escutar e
viajar.
RECAÍDA
Sim, os Beatles
eram mais santinhos que os Rolling Stones, pero no mucho! Dia 9 de outubro, na
passagem do aniversário de John Lennon, as TVs apresentaram especiais sobre os
quatro notáveis e acabei tendo uma recaída braba de fã incondicional. Tive
sonhos, visões e flashbacks de quando o Brasil e mundo foram invadidos pela
lisergia sonora que tanto pano pra manga deu a tropicalistas, gregos e
troianos.
Me lembro do Gil
escutando “The Fool On The Hill”, lá no Hotel Danúbio, minutos antes da apresentação
de “Domingo no Parque”; me lembro de Caetano chapado com a letra de “A Day In
The Life”; Torquato Neto dissecando “I Am the Walrus”; me lembro dos Mutantes
fazendo pout-pourri de Beatles nas festinhas do Mackenzie e perdendo noites de
sono eletrificando o cello do Rogério Duprat para obter o som de “Eleanor
Rigby” em “Panis et Circensis”; me lembro dos críticos da época descendo o
malho nos Quatro Cavaleiros de Liverpool e sentenciando aquilo tudo como um
“too much ado about nothing”; me lembro de ter ficado horas e horas a fio
debaixo de neve em frente à Apple para ver Paul e John saírem dos Rolls Royce
Branco.
TESTE DE MEMÓRIA
Sim, lambi a
maçaneta da Apple. Amanheci várias vezes na porta da loja de discos Josmar, na
Vila Mariana, para poder comprar os discos deles em primeira mão. Me lembro de
ter assistido 16 vezes “A Hard Day’s Night”, em apenas dois dias no Cine
Metrópole da São Luís. Eu e minha irmã Virgínia fazíamos testes uma para a
outra sobre quem sabia de cor os diálogos do filme; me lembro de querer a
princípio casar com Paul e depois ter sucumbido à sedução de John em “Help”.
Ganhei uma bateria
(Caramuru) de formatura de ginásio e tirei direitinho a levada meio baião no
bumbão e ximbau de Ringo em “From Me to You”. Você já assistiu “Yellow
Submarine” viajando? Então, perdeu, porque agora não se fazem mais nem
“Sunshines” nem Beatles como antigamente. Uma amiga, a Lizzie Bravo, foi a
única brasileira que gravou com os Beatles. Minha inveja fez com que eu
“esquecesse” o nome da faixa; mesmo assim ela me presenteou com fotos inéditas
do evento.
Lembra de quando o
Paul “morreu”? Era só neguinho fazendo manobras mirabolantes para escutar de
trás para frente o finalzinho de “Sgt. Pepper”. Até hoje não se foi uma piada
promocional ou se a gente era louco mesmo, mas que eu ouvi “Paul is dead”, ah
eu ouvi! Como eu já era do fã clube das viúvas de James Dean, pensei em fundar
o clube das new viúvas de Paul, mas quis Deus que eu me transformasse numa
inconformada viúva de John Lennon.
VIÚVA
Aliás, sempre fui
viúva de John, desde Cinthya. Yoko Ono nunca me enganou; ela tinha inveja da
popularidade de Lennon e fez de tudo para teleguiá-lo. Acabou com conseguindo
com que ele fosse “crucificado” por um doido babaca. “Feia” McCartney era
grupie de meio mundo; se infiltrava nos bastidores com sua câmera, fotografando
o ego dos stars. Depois que Jimmy Hendrix lhe deu um pé na bunda, “Feia”
Eastman ficou na cola de Paul, até arranjar uma barriguinha e obriga-lo a se
casar com a grana dela.
Pattie Boyd trocou
os solos de guitarra e a cama de George Harrison pelas de Eric Clapton e ainda
convidou o panaca para padrinho. E Ringo Starr se casou com uma ilustre
cabelereira desconhecida chamada Marine Cox, passou pelos braços de Barbara
Bach e acabou, quem diria, como um dos alcoólatras anônimos mais famosos do
planeta.
Apesar de ter
ficado séculos de mal com eles, até hoje tenho pendurados na minha casinha
quatro quadro dos Beatles, pintados a lápis por mim em 1964, lembrança de
quando no Brasil a ditadura dava o ar da sua desgraça e a gente se vingava de
tudo tocando e cantando “Äll You Need Is Love”. Quem tiver ouvidos que ouça
essa coletânea campeã de audiência e tenha a certeza de que a fase pré-amores/
horrores dos Beatles continua sendo a oitava maravilha do mundo.
P.S.: Da próxima
vez que Paul que vier ao Brasil vou presentear “Feia”McCartney com uma “Goats
Head Songs” para que ela tenha um ataque cardíaco vegetariano! Coisas de
mulher...